OH.MEU.DEUS. O tanto de comida que tinha naquele banquete, dava para alimentar uma população inteira da algum lugar remoto na África.
Cada vez mais eu me sentia em um seriado americano. Luxo para todos os lados. Como se o mundo real fosse a ilusão.
Senti a mão do Brian em minhas costas, empurrando levemente, para que eu seguisse em frente. Acho que ele percebeu a minha hesitação. E realmente, aquele jantar não era o meu lugar. Pessoas esnobes, erguendo taças de vinho e champanhe, com seus sorrisos perfeitos, rindo de coisas sem sentido. Mas seria tão injusto com o Brian. Desde que nos conhecemos, isso horas, ele foi tão simpático.
- Eles não mordem no final das contas. – ele sussurrou ao meu ouvi. Ri com sua colocação, era perfeita aos meus pensamentos. Mas não foi ela que me fez dar mais um passo, mas segui pela pessoa que a pronunciava.
Todos já tinham ocupado seus lugares. A mesa gigantesca e farta, ainda tinha espaço suficiente para mais pessoas. Brian, ao invés de se sentar na cabeceira da mesa como anfitrião e dono da casa, procurou um espaço onde eu pudesse ficar ao seu lado. Como um cavaleiro, puxou a cadeira para eu sentar. Um príncipe em minha vida.
- Ain, Brian. – estremeci ao ouvir a voz aguda da Rebecca. – O lugar do anfitrião é na cabeceira – ela apontou para o lugar vazio – não acredito que vai quebrar essa etiqueta. O que sua avó pensaria sobre o que andam ensinando em Gutenberg? – ela tomou um gole do seu champanhe. Vaca.
- Ah! Brian – Falcon levantou – não esquenta com isso, não me incomodo em ocupar o seu lugar. – com seu sorriso besta de “eu sou o máximo”, sentou em uma das pontas da mesa. Jogou um beijei para a Izzie que fez cara de nojo e colocou uma garfada de comida na boca.
No final das contas, cada um ficou no seu lugar. Menos o Falcon que parecia ter formiga na calça, não parava quieto um minuto.
Brian insistiu para me servir, mas eu também insisti para que não o fizesse. Venci. Izzie que estava na minha frente e cada segundo entendia mais porque ela era a melhor amiga do Brian.
- Então Mel – ela estava já no segundo prato, agora ao invés da salada, comia uma macarronada. Sua habilidade com o garfo e a colher era invejável, mas percebi que todos ali também comiam assim. Eu preferi pegar um pedaço de lasanha, menos arriscado quebrar etiquetas. – Vamos acampar em New Haven depois do Ano Novo, quer ir? – Izzie só podia ser amiga do Brian mesmo, os dois tinham a mesma carinha de “não me abandone”.
- Hãm... – olhei para o Brian e ele apenas sorriu – Claro. – coloquei um pedaço de lasanha na boca e vi que a Rebecca encarava a Izzie como se não tivesse gostado do convite feito a mim. Terminei de mastigar. – Mas... Não quero atrapalhar.
- Mel, por favor! – Brian me repreendeu. – Izzie está te convidando, caso fosse atrapalhar, ela não o faria. Relaxa. – ele acariciou a minha mão direita que estava apóia da mesa.
- Provavelmente estará frio. Bem frio na realidade – Izzie começou a explicar – Lá é uma região montanhosa e por estarmos no inverno é provável que neve - eu fiz uma cara de espanto. Afinal, nunca vi neve e não queria que a primeira vez fosse traumática – Você tem roupas quentes né?
Pensei nas minhas caixas e em que parte do atlântico elas deveriam estar agora. Eu tinha algumas roupas quentes no meu novo closet, mas as novas e que realmente esquentavam ainda não estavam lá.
- Não se preocupe – Izzie se adiantou, devido o meu silencio. – o Brian pode te levar lá em casa e você escolhe algumas. – ela definitivamente era uma fofa.
- Ai Izzie, obrigada. Minhas roupas estão em um navio nesse exato momento, vão chegar só depois... - eu estava meio constrangida com a situação.
- Típico! – a besta da Rebecca cuspiu alguma coisa do tipo, o que levou a sua amiguinha Kalie a dar risinho irritante.
Brian e Izzie fecharam a cara para as duas. Os gêmeos pareciam estar em alfa. Phillip estava conversando com o Falcon, então, nem reparou em nada.
- Então, Melary – Izzie pronunciou o meu nome bem devagar, para que as duas bestas da mesa percebessem que elas nada tinham haver com a conversa. – Já disse não se preocupe. Se suas roupas chegaram, tudo bem, e se não chegarem, tudo bem também. – ela abriu um sorriso cordial – E mesmo que chegarem, sinta-se a vontade de ir la em casa de qualquer jeito!
O resto do jantar foi bem tranqüilo. A sobremesa estava fabulosa como todo o resto. Izzie e Brian conversaram comigo o tempo todo, me deixando bem a vontade. Falaram um pouco da cidade, que eu só vi através de vultos (por causa do “racha” entre o Brian e o Phillip). Os gêmeos chegaram a comentar alguma coisa. Falcon sempre que podia interferia. O resto, pareciam ter se recolhido a sua insignificância (defini-se resto por: Kalie, Rebecca, Phillip e Alex – que por sinal, não abriu a boca para nada).
Voltamos para sala que estávamos antes. Izzie correu para por um CD. Colocou algo que lembrava os Beatles. Kalie e Alex tiveram que ir embora, segundo Kalie – já que Alex definitivamente não abriu a boca para nada – disse tinham que ir cedo para casa, pois tinham uma viagem marcada para Europa. Acho que Paris. Iam passar a virada lá. Rebecca ressaltou desnecessariamente, o quão era importante e amiga estar de volta para o acampamento. Procurei ignorar.
Os gêmeos subiram para o quarto do Brian. Ele me disse que os dois são loucos por internet. Ela não precisou me explicar mais nada.
Agora ali estávamos nós. Brian e Izzie, eu no meio, em um sofá. Em uma poltrona Rebecca e Phillip, ela sentada no braço da cadeira. Falcon estava ao telefone no bar, por incrível que pareça, ele estava sendo super discreto.
- Melary – odiava como Rebecca pronunciava o meu nome – fale mais sobre a sua família. – ela fez um gesto com a mão como se estivesse me dando espaço para me abrir. Nunca me abriria com uma cobra como ela.
Phillip se ajeitou na poltrona, parecia meio desconfortável. Mas o que me fez seguir em frente, foram os olhares de curiosidade dos meus novos amigos.
- Bem, ela é normal. Nada demais. – dei de ombros.
- Ah! Mel, fale mais... – Izzie quicou no sofá de curiosidade. Esbocei um sorriso, que logo morreu, quando vi os olhos da Rebecca se revirar. Agora Falcon também fazia parte da platéia, sentado no sofá da frente todo esparramado.
- Ok. – abracei uma almofada e me ajeitei no sofá- Eu moro com os meus pais e o meu irmão.
- Seus pais fazem o que da vida? – Rebecca perguntou com um ar de presunção.
- Meu pai ele é professor universitário em uma universidade pública há anos. É bem provável que seja indicado para vice-reitoria ano que vem. – meus olhos brilhavam de orgulho, correspondidos pelos sorrisos da Izzie, do Brian e até mesmo do Falcon. Comecei a me acostumar a ignorar o casalzinho esnobe – Minha mãe, bem, hoje ela é dona de casa, mas já trabalho como editora em uma revista com nome no Brasil.
- E seu irmão? – Falcon parecia bem interessado, já que moveu o corpo para frente, apoiando os cotovelos no joelho.
- Peter – eu ri – ele tem nove anos. Uma peste, mais eu o amo. – aquela conversa começou a dar um aperto no meu coração.
- Você tem mais parente? – Izzie perguntou.
Nessa hora o meu nextel tocou. Eu reconheci pela musica. Já que eu não fazia idéia de onde minha bolsa estava. Eu levantei, mas foi Brian (como sempre eficiente) que trouxe a minha bolsa.
- Obrigada Brian – ele apenas sorriu – Desculpa, gente.
Comecei a procurar o aparelhinho em meio aos documentos, chaves, maquiagem. Dei graças que o meu toque não era constrangedor como o do Phillip, que tocava 50 cent. “Achei”. Ela minha mãe.
- Não vai atender? – o Brian falou. Essa era a questão, eu deveria atender?
- Deve ser o namoradinho, não quer que ele descubra que esta fazendo uma social, por aqui... – ignorei a vaca falante. Meu celular tinha parado de tocar.
- Cala boca, Rebecca. – todos olharam para o Phillip, que tinha acabado de se levantar e sair da sala. Todos ficaram de boca aberta. Acho que todo ate Rebecca, se perguntava o que tinha dado nele.
Nisso o meu celular voltou a tocar. Rebecca saiu da sala também, depois de me encarar.
Enfim, apertei o botão.
Bip-bip.
- Mel – o mundo parou. Brian me olhou com uma cara interrogativa. Não era para ter saído no auto falante. E quem estava do outro lado era o Yan. Por mais que ninguém ali entendesse português e ele não tivesse dito nada alem do meu nome, era bem claro que se tratava de um menino.
Desesperadamente apertei um botão que saiu do viva voz.
- Oi, Yan. – era tão estranho falar português depois de ter acabado de falar inglês por um longo período, o qual eu não estava acostumada – Tudo bem? – aos poucos fui andando ate o bar, onde sentei de costas para a platéia.
Bip-bip.
Ouvi o trio cochichando. Izzie perguntou alguma coisa sobre se o Brian sabia que era o Yan. De Falcon a palavra namorado se destacou entre as outras. Brian apenas repetia: Eu não sei.
- Mel? – uma voz ao meu ouvido me chamava. Lembrei-me que o Yan estava na linha.
Bip-bip.
- Desculpe Yan, estava distraída. – apoiei o meu cotovelo no mármore e passei a mão livre pelo me cabelo. – Está tudo bem?
Bip-bip.
- Eu já disse Mel, sim. Você está mesmo avoada né? Pensei que fosse entrar na internet para podermos conversar.
Bip-bip.
- Ainda nem configurei a rede Yan. Mas me diz por que você ligou? – não era uma boa hora para conversas.
Bip-bip.
- Está ocupada?
Bip-bip.
- Um pouco.
Bip-bip.
- Com o que?
Bip-bip.
- Por que?
Bip-bip.
- Não posso saber?
Bip-bip.
O murmurinho ao fundo tinha cessado. Provavelmente deviam estar assistindo ao fight do Bip-bip.
- Estou com uns amigos, ok?
Bip-bip.
- Acho que ela disse amigos em português. – Izzie falou baixinho, mas não o suficiente para que eu não ouvisse.
- Nada. Já fez amigos, assim tão rápido?
Bip-bip.
- Qual é Yan? – eu falei que aquela não era uma boa hora para conversas. Meu tom de voz já estava ficando elevado – Acha que eu não tenho a capacidade de fazer novas amizades?
Bip-bip.
- Deixe de ser infantil, Mel! – Yan ainda mantinha o seu tom de voz.
Bip-bip.
- Infantil? Eu? – fechei os olhos e respirei fundo – Olha Yan, eu estou numa noite maravilhosa com os meus novos amigos, é isso mesmo. Novos. Se você não tem capacidade de fazer novos amigos ai, o problema não é meu. Não venha com sermões.
Bip-bip.
Silencio.
- Ela falou alguma coisa sob novos amigos. – Izzie parecia entender um pouco de português, mas muito pouco. Se eu não tivesse tão estressada com o Yan, riria da situação.
Bip-bip.
- Depois eu sou a infantil. – eu falei, já que não obtive resposta.
Bip-bip.
- Já acabou? – ele falou seco.
Bip-bip.
Fiquei quieta.
Bip-bip.
- Não queria atrapalhar a sua noite perfeita, não tive intenção. – agora ele vai dar uma de vitima. Cara, eu adoro o Yan, mas ele às vezes quer ser tão... tão controlador. Somos só primos! Mesmo que fossemos algo a mais... Somos primos, não existe algo a mais. – Depois conversamos.
Bip-bip.
- Ok.
Fechei o flip.
Respirei fundo, antes de encarar a minha pequena platéia confusa.
- O que aconteceu Mel? Quem é ele? – Izzie parecia assustada. Brian parecia ter perdido a língua.
- Meu primo. – dei de ombros.
- Seu primo? – Brian recuperou a língua, mas parecia não acreditar no que eu dizia. – Não parecia.
- É eu sei. Mas é sou o meu primo mesmo. Crescemos juntos, então, ele se sente um pouco responsável por mim. Desculpem-me a cena.
- Ah! Que isso. – Izzie puxou a minha mão me trazendo de volta ao sofá. – Relaxa.
- Primo? – Brian sentou meio atônito ao meu lado.
- É cara! – Falcon se jogou uma almofada no Brian. – Quer que alguém soletre?
A almofada pareceu trazer o Brian de volta.
- Então soletre. – ele encheu boca com um sorriso maldoso.
- Ah... Já tá meio tarde, tomei uns copos de vinho... Sabe como é...
Falcon não conseguiu terminar, porque Brian acertou em cheio uma almofada na cara dele.
Foi um finalzinho de noite espetacular. Depois de o Brian perguntar mais umas quatro vezes sobre o Yan e eu contar detalhadamente todo a minha história, ele entendeu que o Yan era só um primo e ponto.
Rimos de coisas idiotas, sem nexo. Não parecia que eu os conhecia há horas. Sentia-me em meio a amigos. Izzie a “melhor amiga”, fofinha e sempre disposta a ajudar. Falcon, o garanhão do grupo, mas uma pessoa boa no final da contas. Brian, nem preciso dizer, o meu príncipe. Eu estava caidinha por ele e cada segundo a mais que passava com ele mais aos pés dele eu ficava.
Mais uma vez
1 dia atrás